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25 maio, 2013

NÃO FIQUE CALMO. SOBRE RACISMO NA INFÂNCIA.

Por Maria Rita Casagrande para o Blogueiras Negras
Eu moro no mesmo lugar a quase 5 anos, nesses 5 anos uma das minhas vizinhas insiste que eu sou diarista dos demais apartamentos. ao me encontrar nos elevadores me pergunta “Em qual vocês está hoje?Quanto você cobra o dia”. Sempre que este encontro ocorre a resposta é a mesma ” Eu moro aqui, sou do 14″. Ela balança a cabeça incrédula e segue o seu caminho. Hoje por fim ela me orientou a utilizar o elevador de serviço.
Ontem meu filho chegou em casa chateado porque as crianças na sua sala de aula dizem que ele tem a “gengiva preta” e que ele é marrom e horrível. Doeu nele, doeu em mim porque eu passei alguns anos da minha infância ouvindo a mesma coisa, ou sendo excluída de algumas brincadeiras porque “gente preta não brinca”, e eu ouvi isso de pessoas que hoje são minhas “amigas” aqui no facebook e que talvez nem se lembrem de terem feito isto. Bom o fato é: nós perdoamos, mas não esquecemos.
Ainda ecoa na minha mente a “brincadeira” onde meninos separavam meninas para formar uma fazenda (sim , crianças de 6 ou 7 anos). Uma brincadeira horrorosa por si só mas que ficava pior quando todos os dias eu entrava na fila da brincadeira e enquanto separavam iam apontando “cavalo branco, cavalo branco” e na minha vez “cavalo preto não brinca”. Isto aconteceu em 1986, já faz um bom tempo, mas em pleno 2013 algumas brincadeiras não são tão diferentes.
Ainda há aqueles que se mantém na ignorância de acreditar que no Brasil não existe racismo, que essas pessoas possam utilizar meia hora de suas vidas para reavaliar seus conceitos, olhar ao  redor e rever suas atitudes, suas piadas, seu comportamento.
 Se forem pais ou mães que o façam com mais carinho e ensinem seus filhos que somos todos iguais, brancos, negros, indígenas, japoneses, católicos, evangélicos, judeus, hetero, gays, portadores de necessidades especiais, gordos, magros. Nosso sangue é vermelho como o de qualquer outro, nossos sentimentos são os mesmos, e os direitos e deveres são iguais ( mesmo que isto não se cumpra). Que façam aquilo que é tarefa principal e eduquem seus filhos para que eu ou qualquer outra mãe negra não precise usar de argumentos confortadores com o filho explicando para ele que os melhores corredores são negros, os melhores jogadores de basquete são negros, os melhores jogadores de futebol, que o presidente da maior nação e de maior poder é negro, que as musicas mais incríveis são compostas e tocadas por negros, que podemos fazer aquilo que quisermos, sermos quem quisermos nos dedicando e que ser negro não é um defeito, é qualidade e que, no caso do meu filho, por não tratar ou jugar ninguém pela cor da pele, religião ou sexo já é melhor do que muitas pessoas.
Crianças são crueis, é verdade, mas apenas algumas, aquelas que não são instruídas corretamente. Não devemos nos limitar a ensinar as crianças apenas a ler e a escrever, a tocar um instrumento e a desenhar. Precisamos ensinar cidadania, tolerância, respeito. Para quem não conhece essas máximas da convivência humana, ainda está em tempo de abrir a mente e se educar.
Nem eu, nem meu filho, nem mais da metade deste país , “precisa” ser tolerante com a ignorância alheia, infelizmente as pessoas só aprendem com medidas extremas como cadeia. Evite que o próximo “criminoso” como a senhora do elevador , saia de dentro de sua casa. Respeite e ensine o respeito porque isto não é um grande ato, ISTO É O MÍNIMO!
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22 abril, 2013

ONDE ESTÃO AS ESTILISTAS NEGRAS?

Por Maria Rita Casagrande para as Blogueiras Negras
Onde estão as estilistas negras? Você conhece alguma no grande circuito? Onde estão as estilistas negras brasileiras? Qual sua história, suas referências.
Bom eu estudei moda, e em meio a outras 26 alunas 2 eram negras. Um olhar posterior mais atento me mostraria que não apenas eram 2 alunas negras naquele semestre do curso de moda. Eram duas alunas negras em toda a faculdade.
Entre as matérias, durante os 4 anos, nada se falou sobre cultura étnica, negros na história da moda e fora um workshop nada foi falado sobre moda nacional.
E eu me pergunto, isto não existe, ou esta apenas escondido embaixo de algumas camadas de preconceito e desinteresse? Não conseguirei responder a essas questões sem um longo estudo, mas o que eu posso afirmar é que se há uma escassez de negros no mundo das (os) modelos, isto se torna ainda maior no mundo dos desenvolvedores de moda e tendências.
Mas, embora afastados da grande mídia, estamos presentes e fazemos bonito.
O papel da mulher negra no design de moda data de tanto tempo atrás, desde civilizações primitivas.  Hoje muitos designers se inspiram na África para desenvolver seus projetos, existe uma ligação inquebrável das raízes africanas com um ofício tão antigo e atual ao mesmo tempo.
Além do clichê “África”, onde estamos na história do design de moda e da costura?
As fotografias mais antigas de povos africanos mostram que eles tinham um forte senso de moda e um olho afiado para design de peças, ainda hoje em muitas tribos africanas, a moda é amplamente variada e significativa para a sociedade.  Diferentes tribos podem se distinguir facilmente por seus trajes, assim como com a ocupação de uma pessoa, sua idade e status social.  Na África antiga e na atual África Tribal itens de vestuário tem ainda mais significado do que no mundo ocidental, onde a moda em sua maior parte, hoje, é uma questão de status, escolha e diversão, em vez de ordem, etiqueta, espiritualidade e simbolismo.
África antiga
O traje da civilização Africana antiga era tão variado como na África de hoje. Os trajes incluem roupas vibrantes e ricamente tingidas, peças longas, penas, peles de animais, joias de pedras preciosas e itens naturais, como madeiras e sementes. Tradicionalmente, eram as mulheres da aldeia que produziam as peças tingindo, costurando e estilizando.  No entanto, a tecelagem era uma tarefa unissex.
Comercio de Escravos
A maioria dos africanos que foram capturados e levados a bordo de navios negreiros para o Caribe e as Américas como escravos foram trazidos em sua maioria completamente nus.  As mulheres passaram então a fiar tecidos caseiros pra seu vestuário, as crianças acabaram por ajudar com a fiação de algodão e lã. Com o reconhecimento destas habilidades femininas, as mulheres logo receberam instrumentos de costura e moldes entregues pelos senhores de escravos para que pudessem fazer roupas também para os seus “proprietários”. Durante o século 18 mulheres escravas Africano-americanas, apesar de terem um papel de destaque como costureiras, não tiveram influência sobre o design das roupas feitas para os seus “proprietários”, elas seguiriam os designs contemporâneos e o jeito europeu de se vestir, isso também nas suas próprias roupas.
A partir do momento em que os negros africanos da América começaram a ganhar sua liberdade, talentosas designers afro-americanas tornaram suas habilidades uma profissão. Até o início do século 19 as mulheres negras não eram reconhecidas como designers de moda no sentido pleno da criação de projetos pessoais. Graças a Elizabeth Keckley, Francis Criss, Ann Lowe e Zelda Wynn Valdes, as mulheres Afro-americanas começaram a ganhar reconhecimento por sua habilidade como designers de moda.
Elizabeth Keckley
Elizabeth Keckley começou seu próprio negócio de costura em 1860, em Baltimore, e mais tarde, em Washington, pouco depois de comprar sua liberdade da escravidão e fugir de duros abusos físicos e sexuais sofridos nas mãos dos seus senhores de escravos (a família Burwell). Ela passou a sustentar a si e a seu filho com o negócio de costura e design.
Entre os seus clientes mais proeminentes estavam Robert E. Lee, Varina Davis, esposa de Jefferson Davis, e, talvez mais significativamente, a primeira-dama Mary Todd Lincoln. Elizabeth Keckley tornou-se muito mais do que uma costureira para a primeira-dama, ela também foi, nas palavras de Mary Lincoln “sua melhor amiga”. Elizabeth Keckley fez uma verdadeira conquista ao passar de escrava para uma costureira de destaque, mulher de negócios e amiga da primeira dama e ainda trabalhou para a abolição da escravatura através de seus clientes brancos bem relacionados.
Francis Criss
Nascida na Virginia, Francis Criss ficou conhecida em Richmond como costureira talentosa. Em 1915, ela se mudou para Nova York, onde projetou e criou roupas para estrelas da Broadway como atriz Gloria Swanson. Sua personalidade era espirituosa extravagante e livre, a sua casa em Nova York foi um centro de influência Afro-Americana.
Ann Lowe
Ann Lowe nasceu no Alabama em 1899 e mudou-se para Nova York com 16 anos. Frequentou a escola de design e abriu uma loja na Madison Avenue. Seus clientes incluíam membros da Vanderbilt, Roosevelt, e as famílias Rockefeller. Ela fez mais de 1.000 vestidos por ano para clientes da sociedade e vendeu seus projetos para Henri Bendel, Neiman Marcus e I. Magnin. Em 1953, Ann Lowe desenhou os vestidos para uma festa inteira, incluindo a mãe da noiva e o vestido de noiva. Tratava-se do casamento de Jacqueline Bouvier e de John F. Kennedy.
Zelda Wynn Valdes
Zelda Wynn Valdes abriu sua própria loja na Broadway, em Nova York, em 1948. Ela era conhecida por seus tomara que caia sensuais e contava entre seus clientes com muitas das mulheres negras notáveis ​​da época, incluindo Dorothy Dandridge, Josephine Baker, Marian Anderson, Ella Fitzgerald e Gladys Knight. Wynn começou cortando seus moldes em papel de jornal, estudando costura com sua avó e trabalhando na alfaiataria de seu tio. Pouco conhecida para muitos, sua obra ainda chamou a atenção de Hugh Hefner, que solicitou a ela para desenhar os figurinos originais e mais popularmente conhecidos como as coelhinhos da Playboy. Ela também ajudou a fundar a Associação Nacional de Designers de Moda e Acessório, uma organização de designers negros.
E hoje? Como as coisas estão? Não mudou muito, não dominamos a indústria da moda, porém existem algumas estilistas americanas que vale a pena conhecer.
Tracy Reese
Os projetos de Tracy Reese são notáveis ​​por sua feminilidade e estilo retro, tecidos brilhantes, cores vibrantes, padrões gráficos elaborados, e um uso lúdico da boemia. Com uma marca homônima que inclui variedades, que vão de casa a sapatos e meias, a marca conquistou reconhecimento em muitas categorias. Tracy Reese tem sua linha de vestuário e moda casa comercializada por grandes redes varejistas como Bloomingdale, Bergdorf Goodman, Neiman Marcus, Anthropologie, Modcloth e Nordstrom. Graças à primeira-dama Michelle Obama seus projetos têm recebido atenção nacional nos últimos tempos.
Monif Clarke
Premiada como “Melhor designer de moda Plus Size” pela Full Figure Fashion Week, “Melhor loja de roupas Plus Size” pela City Search, “Melhor loja Plus Size de Traje a Rigor” pela Time Out New York e da revista Essence ‘s “Os líderes da nova escola”, Monif C foi criada em 2005 pela parceria entre mãe e filha, Elaine e Monif Clarke, para reafirmar o desejo de cada mulher de ter uma vida inspirada e repleta de luxo e puro sexy appeal. Cores adoráveis, estampas e detalhes vintage surgiram a partir de verões gasto em Barbados visitando sua família.
Hoje, como uma mulher plus size, Monif compreende a necessidade de uma nova perspectiva no mercado plus size. Monif C. tem sido destaque na Fox Business, NBC Today Show, ABC News, Barbara Walters ‘the View, The Washington Post, Latina, New York Business Crain, Essence, Glamour, TLC’ s What Not to Wear, Seventeen Magazine , Ebony, Jet e muitos mais. A coleção Monif C. é essencialmente um guarda-roupa para uma mulher jovem, contemporânea, sexy e plus size.
Laura Smalls
A primeira-dama Michelle Obama fez Laura Smalls virar uma sensação. Apesar de o pico durante a noite em sua marca, devido à atenção nacional, Smalls não é novidade para a indústria da moda. Em 1976 ela se formou na Parsons School of Design, prontamente vendeu uma pequena coleção de primavera para Bloomingdale e Henri Bendel – e depois…nada. Na temporada que se seguiu, a Bloomingdale optou por não comprar sua coleção subsequente, e um novo comprador tinha substituído o seu contrato na Bendel. “Eu não poderia mesmo obter manter este compromisso”, Smalls disse o Huffington Post. Ironicamente, o ano em que comemoramos a eleição do primeiro presidente negro era o mesmo ano em que ela começou a desenhar de novo, e não demorou muito para que a primeira-dama Michelle Obama a descobrisse e adicionasse Smalls à lista de designers americanos que frequentemente usa.
Recentemente assisti ao Project Runaway e ao Project Runaway all stars. No programa estilistas iniciantes tem suas peças avaliadas por uma bancada formada por Heidi Klum, Michael Kors e Nina Garcia (vogue) em duas temporadas uma excelente estilista negra chamada Korto ficou com o 2º lugar. Nem eu nem ela entendemos porque com criações belíssimas e na minha opinião perfeitas, Korto não ganhou nas duas edições. Será porque a moça curvilínea de black power não tinha o padrão queridinha da américa? Será que suas estampas eram demais para o mercado americano? Não sei.
A história da indústria da moda está cheia de importantes contribuições criativas e talentosas de estilistas negras. As mulheres negras certamente tem uma contribuição fundamental para o crescimento da indústria da moda e à elegância do guarda-roupas das mulheres que remonta à escravidão e vem desde a antiga África. Nossa presença na indústria da moda de hoje é consideravelmente baixa, como modelos e principalmente como criadores. No entanto, podemos mudar isso, garantindo que as estilistas negras aqui no Brasil também recebam nosso apoio.
Mas como apoiar estilistas negras se mal às conhecemos?  Confesso que não encontrei referências sobre estilistas negras no Brasil (não entendo como é possível, enfim…), mas acredito que elas existem e com um pouquinho de sorte a gente descobre gente talentosa para escrever uma nova página na nossa história.

23 março, 2013

MODAS, MODISMOS E PALHA DE AÇO

Por Maria Rita Casagrande
Faz uma semana que comecei em um trabalho novo. Voltei para um ambiente que eu já conhecia para receber um salário que jamais me permitiria me vestir de Gucci, Dior, Balenciaga, talvez nem me vestir numa C&A ou Riachuelo da vida (sim amoras não é salário é mais como uma lembrancinha de festa de aniversário). Mesmo tendo estudado moda, única negra em sala de aula, diga-se de passagem, marcas especificamente nunca foram minha prioridade, porém minha roupa, embora não me defina, me representa.
Minha mãe sempre esteve arrumada e maquiada até para ir à padaria. Ela escolheu nunca sair de casa sem meio litro de rímel e seu cabelo sempre bem feito porque ela se importava com ela e queria projetar isso. Não estou defendendo que qualquer uma deva sair e gastar seu suado dinheirinho em roupas apenas para mostrar como elas são elegantes, ou já sair da cama diva, maquiada e no salto, mas eu estou dizendo que a forma como você se mostra ao mundo faz diferença na sua autoestima também. Não importa de onde suas roupas vêm, é como você as usa que te representa junto ao mundo. Acima de qualquer imposição da sociedade nós devemos ter orgulho de nossa imagem.
A moda é muito mais do que os “modismos”. A moda é um elemento histórico, que reflete mudanças sociais e culturais, e mesmo quem sai por ai negando a moda ou fazendo criticas extremas a indústria limitada da moda também dita moda. Proponho então, que abandonemos os modismos e que possamos nos permitir deixar nossa marca no mundo emanando aquilo que trazemos de belo na alma através de nossa imagem também.
Ai você me pergunta, onde mulheres negras encontram referências de moda? A indústria do alisamento e da chapinha domina, nosso quadril não cabe em saias e calças vendidas por ai, as cores não nos favorecem, a base é sempre 20 tons mais claros ou 50 mais escuros que nossa pele, como usar referências afro sem parecer que você vai correr para a savana a qualquer momento e se atracar com um leão, como se amarra um turbante? O que fazer se não vemos nos desfiles de moda modelos negras e quando existe alguma menção a nós nas passarelas o fazem de maneira equivocada.
Desfile Ronaldo Fraga
Desfile Ronaldo Fraga, Reprodução
O que dizer do triste desfile de Ronaldo Fraga com as modelos ostentando uma peruca feita de BOMBRIL. O desfile aconteceu nesta terça feira (19) nos desfiles da coleção verão 2014 na São Paulo Fashion Week, as perucas foram criadas em parceria com o maquiador Marcos Costada e deveriam ser uma “HOMENAGEM” (a onda do momento é ser sexista, homofóbico, racista e dizer que é homenagem? – me atualizem porque eu acho que NÃO.) já que a coleção possui inspiração no futebol e na cultura negra.
Ronaldo Fraga tentou justificar de inúmeras maneiras esta “representação da cultura negra”, eu tenho pra mim que se você quer fazer uma homenagem a cultura negra e exaltar a beleza do cabelo afro você simplesmente faz um desfile inteiro com modelos negras com cabelos naturais. Simples assim. E você ainda tem o plus de chocar uma vez que o percentual de modelos negras nas passarelas é de apenas 2% e o mesmo é percebido nas campanhas publicitárias das mais importantes marcas de luxo.
Na minha humilde opinião criticar o racismo dando mote para mais racismo é no mínimo fail. Para quem passou a infância sendo chamada de cabelo de palha de aço como eu, só restou um imenso mal estar e, assim como nunca mais entrei numa loja Marisa depois da campanha com as folhas de alface e a ode as dietas, não sei se usaria Ronaldo Fraga como referência de moda, neste momento. Admiro algumas coleções, a coragem de exibir desfiles excêntricos, reconheço seu passado, mas ficou o mal estar e esse ninguém vai apagar. A possível beleza da coleção foi completamente ofuscada por ideias equivocadas. Na próxima vez que for usar a cultura negra como inspiração de coleção, consulte um negro (a), ( ou tenha bom senso) fica a dica :D
Acima de qualquer equivoco de moda, das nossas lutas, dos nossos desafios existem alternativas e boas fontes de inspiração. O mais importante é: não se anule,não permita que te apaguem, se orgulhe de sua imagem e brilhe.